Roland Garros 2009: o tênis agradece (07/06/09 – 13h30)

O mais clássico dos torneios e preferido da maioria dos jogadores chegou ao fim. Foram duas semanas recheadas de grandes jogos, surpresas e emoção. Diferente das últimas edições, os campeões, tanto na chave masculina como na feminina, são inéditos.

 

O equilíbrio

A derrota do rei do saibro, Rafael Nadal após um seqüência de 4 anos de invencibilidade no saibro francês, sua 1ª em Roland Garros, é prova irrefutável do equilíbrio que existiu no torneio. O que acompanhamos nos últimos meses, principalmente no masculino, foi o predomínio dos 4 melhores rankeados: Nadal, Federer, Murray e Djokovic. O primeiro a cair, na 3ª rodada, foi Djokovic diante do pouco comentado, porém ótimo jogador alemão, Philipp Kohlschreiber. Nas oitavas de final foi a vez de Nadal dar adeus, diante do sueco Robin Soderling. Murray perdeu nas quartas de final para Fernando Gonzalez. Aliás, Murray ainda tem bastante a aprender no saibro.

Esse equilíbrio se reflete no ranking dos semifinalistas:

Masculino: Roger Federer (2), Juan Martin Del Potro (5), Fernando Gonzalez (12), Robin Soderling (23)

Feminino: Dinara Safina (1), Svetlana Kuznetsova (7), Dominika Cibulkova (20), Samantha Stosur (30)

 

Federer na história

Roger empatou o recorde de Pete Sampras, com 14 títulos de Grand Slam. Entrou para o seleto grupo de tenistas que venceram os 4 principais torneios do Circuito, feito não conseguido, por exemplo, por Sampras. Sem desmerecer a conquista inédita e o currículo do suíço, vencer Roland Garros sem bater Nadal não é a mesma coisa. Posso até ser contestado, mas Federer não seria campeão se cruzasse com Nadal na finalíssima.  A conquista deu-se em um momento em que muitos já questionavam a qualidade de Roger. Sua campanha foi bem mais irregular do que nos anos anteriores. Embora tenha passado com autoridade por Alberto Martin e Monfils, teve muitas dificuldades contra Mathieu e viu a derrota de perto contra Acasuso, Haas e Del Potro. Contra os três últimos, teve que mostrar todo o seu arsenal de golpes e uma garra poucas vezes evidenciada.

Federer tem tudo para superar Sampras em conquistas, mas sinceramente não jogou e nem jogará o mesmo que Pete, o maior de todos os tempos (detalhe: em sua época, o Circuito era mais competitivo, pois havia uma quantidade muito maior de grandes jogadores).

 

A derrota de Nadal

A receita utilizada por Robin Soderling para derrotar Nadal é difícil de ser seguida: Agredi-lo o tempo todo, cometer poucos erros e perturbá-lo mentalmente. A primeira e a segunda tarefa, obviamente complementares para se obter sucesso, Soderling executou com perfeição. O sueco é dono de uma das direitas mais pesadas do Circuito (comparável a de Fernando Gonzalez). A parte mental começou a ser construída no confronto entre eles em Wimbledon 2007, quando Soderling provocou, imitou e desdenhou de Nadal no meio do jogo disputadíssimo que fizeram, com a vitória de Nadal. A partir daí tornaram-se inimigos. Tenho certeza de que levaram esse histórico para o confronto em Roland Garros 2009. A vontade de Soderling vencer era tremenda, da mesa forma que Nadal não admitia uma derrota. A medida que via seu inimigo fazendo frente ao seu jogo imbatível no saibro, Nadal perdia sua concentração habitual e aos poucos o jogo. E não é que deu certo, Soderling 3×1 Nadal.

Soderling: o carrasco de Nadal

Soderling: o carrasco de Nadal

 

 

 

No 1 sem brilho

Quando parecia que finalmente Dinara Safina justificaria a sua questionável posição de número 1 do ranking, a russa falhou mais uma vez. Após 6 brilhantes partidas que a credenciaram como favorita na final contra a compatriota Svetlana Kuznetsova, o que se viu no último sábado foi uma tenista perturbada. Desde o início não conseguiu impor seu jogo e aí seu emocional foi para o espaço. Aliás, essa parece ser a grande herança de seu irmão, o gênio perturbado Marat Safin. Sem maiores problemas Kuznetsova, muito mais habilidosa e com excelente leitura de jogo, conquistou seu segundo título de Grand Slam. Para Safina, segue a desconfiança dos analistas e adversárias (o que dirá Serena Williams, que declarou recentemente ser a verdadeira no 1) em seu jogo e a pressão para conquistar um Grand Slam.

 

A volta de Sharapova

Após 10 meses longe da competição e uma queda abrupta no ranking (140ª), Maria Sharapova voltou acima das expectativas. Conseguiu atingir as 4as de final, lutou bastante em todos os jogos, aliás essa é sua grande virtude. Ainda vai demorar para chegar a sua melhor forma, mas os fãs agradecem o retorno em grande estilo.

 

 

O surgimento de novas forças no feminino

É verdade que o tênis feminino estava ficando cansativo, com o mesmo grupinho de jogadoras se revezando nas primeiras colocações dos torneios. RG 2009 pode ter representado o ponto de inflexão desse estado. A minha principal aposta é Victoria Azarenka. Embora eliminada nas quartas de final por Dinara Safina, seu jogo tem impressionado. Mais cedo ou mais tarde a bielorrussa deve chegar ao topo do ranking. Não podia deixar de falar de Dominika Cibulkova, a bela eslovaca de quem sou fã. Já havia alertado em textos anteriores que ela era uma jogadora muito interessante, não apenas pela sua beleza e simpatia, mas também pelo jogo sólido. A semi-final veio sacramentar sua ascensão no Circuito. Sem dúvida é a tenista com maior agilidade e mobilidade em quadra. Em virtude de sua baixa estatura, sofre um pouco com o saque. A vitória por 6/0 6/2 diante de Sharapova foi um ótimo cartão de visita para quem ainda não havia prestado a atenção na moça. Contra Safina na semi-final, o placar de 6/3 6/3 não reflete o equilíbrio da partida. As duas travaram uma dura batalha de fundo de quadra, com trocas de bola intermináveis. No final, falou mais alto a potência dos golpes da russa. Outra tenista que merece destaque pela campanha é a australiana Samantha Stosur. Não posso falar muita a respeito, pois não tive a oportunidade de acompanhar suas partidas, mas com certeza ninguém é semifinalista de Roland Garros por acaso. A revelação é a portuguesa Michelle Larcher de Brito, de apenas 16 anos. Seu jogo ainda vai evoluir bastante, mas já mostrou muita personalidade e parece ter sangue quente. Em seu primeiro Grand Slam já conseguiu arrumar encrenca com adversárias, árbitros e torcida.

Domi: comemoração após mais uma vitória

Domi: comemoração após mais uma vitória

 

 

 

O desempenho dos brasileiros

Certamente o ponto negativo, por se tratar do único Grand Slam em que o Brasil tem alguma tradição de bons resultados. Na chave de simples, nenhum de nossos tenistas passou da 1ª rodada. Marcos Daniel teve um bom desempenho. Fez frente à Nadal nos 2 primeiros sets. Franco Ferreiro também teve virtudes. Abriu 2×0 contra o bom Feliciano Lopez, mas não agüentou a pressão de fechar a partida e tomou a virada. Thiago Alves entrou na chave como lucky loser e não teve chances contra o promissor francês Jeremy Chardy. Thomaz Bellucci, nossa maior esperança, abandonou no 3º set alegando câimbras, com o jogo empatado contra o argentino Vassalo Arguello. Nossa dupla 100% brasileira (Melo/Sá) também caiu logo de cara. Já Bruno Soares, ao lado do experiente tenista do Zimbábue Kevin Ullyett, chegou às quartas. Nas duplas mistas o melhor desempenho foi o de Marcelo Melo, que esteve com a mão na taça e por detalhes não conquistou o título ao lado da americana Vania King.

 

As decepções

Serena e Venus Williams nunca foram especialistas no saibro, mas já tiveram resultados bem mais expressivos nessa superfície. As sérvias Jankovic e Ivanovic também estiveram longe da melhor performance. Ivanovic parece ter se perdido no circuito. Seria o deslumbramento pela fama excessiva? Isso o tempo vai mostrar. Dementieva, outra ótima jogadora também caiu cedo. No lado masculino, a queda precoce de Djokovic foi surpreendente em virtude do alto nível do seu jogo nas últimas semanas. Gilles Simon, 7º na ranking, definitivamente não vai bem em Roland Garros. Ano após ano se complica nas fases iniciais. A armada espanhola como um todo foi uma decepção. Apenas 1 jogador entre os 8 melhores (Tommy Robredo). Há alguns anos os espanhóis dominavam o torneio, com grandes aparições de jogadores como Sergi Bruguera, Carlos Moya, Alex Corretja, Albert Costa, Juan Carlos Ferrero e mais recentemente Rafael Nadal.

 

Atrativos fora de quadra

O entretenimento também faz parte do show. Por isso, os organizadores de RG sempre buscam maneiras de transformar os tenistas profissionais em figuras descontraídas e atrativas ao público. Há 2 anos me lembro dos jogadores(as) na inusitada situação de cantores, com direito a performance e tudo mais. Neste ano, a idéia também foi interessante. Jogadores(as) eram convidados a passear no carro oficial do torneio, interagindo com o(a) motorista ao mesmo tempo em que respondiam a perguntas inusitadas que apareciam em uma tela a sua frente. Os vídeos desse ano podem ser vistos no site oficial do torneio (www.rolandgarros.com)

 

Agora resta aguardar a edição de Roland Garros 2010.

 

Daniel de Oliveira

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